“O comboio deixou de apitar na Linha do Sabor a 1 de Agosto de 1988, mas as memórias e as ruínas parecem ser muito mais antigas. O P2 foi ver o que resta daquela via estreita que ligava o Pocinho a Duas Igrejas, junto a Miranda do Douro, e encontrou estações lindíssimas ao abandono, uma região ainda isolada e um povo cheio de saudades. Por Pedro Garcias (texto) e Paulo Pimenta (fotos)


Manhã triste como são as manhãs de Outono quando acordam debaixo de nevoeiro. O mundo não acaba no Pocinho, mas o lugar parece ter algo de derradeiro destino, o ponto final de uma aventura que deixou ali os seus despojos, prédios a cair, armazéns velhos, casas entaipadas de cimento com desenhos a imitar janelas, os restos de uma memória em que a pequena aldeia era ponto de derivação ferroviária para Barca d”Alva, e para o Planalto Mirandês. Agora, o último silvo do comboio não passa dali, soando tão raramente que já nem as crianças atrai.

A tristeza da manhã é a tristeza do lugar. A estação, pintada de novo, e os entrepostos de adubos e de cimento são o que resta em bom estado dos tempos em que tudo girava em torno do comboio e uma região inteira desaguava no cais de embarque, carregada de tudo, até da vontade de fugir do desterro e da miséria. Hoje, a gente é pouca, um ou outro estudante, a mulher que vai em tratamentos ao Porto, turistas procurando a beleza do Douro.

Há a promessa governamental de recuperar a ligação a Barca d”Alva para fins turísticos, mas a formidável odisseia de levar o comboio até Miranda do Douro deve ter terminado para sempre naquele dia 1 de Agosto de 1988, quando uma automotora saiu de Duas Igrejas e foi colhendo até ao Pocinho todos os pequenos materiais que podiam ser reutilizados noutras linhas, candeeiros pequenos, relógios das estações, coisas assim.

Abílio Carvalho, 72 anos, morador em Carviçais (Moncorvo), era o maquinista, o carrasco inocente da linha. “Deixei a automotora no Pocinho, segui num comboio até ao Porto e cruzei-me com outro onde vinham os altos comandos de Campanhã. Fiquei intrigado. No Porto, mandaram-me levar um comboio até Ermesinde e foi então que vi lá parada a automotora que eu tinha trazido de Duas Igrejas. Só depois é que fiquei a saber que os altos comandos tinham ido buscar a última automotora do Sabor e encerrado a linha.” Semanas depois, Abílio Carvalho conduziu também o último comboio entre Barca d”Alva e o Pocinho. Triste sina.

Só passaram 21 anos e, no entanto, a Linha do Sabor parece ter muitas mais décadas de ruína. O início do troço está ocupado pelo entreposto da Cimpor e a velha ponte ferro-rodoviária sobre o Douro encontra-se fechada ao trânsito, com ar de fóssil industrial. Mais ou menos 282 metros de orgulho para a indústria e a engenharia nacionais da altura a apodrecerem sobre o Douro.

A travessia, com portagem, foi inaugurada a 14 de Junho de 1909, integrada na antiga Estrada Real N.º 9, que ligava Celorico da Beira a Miranda do Douro. Era vista como “a ponte levadiça para o Eldorado” (Águedo de Oliveira, jornal Mensageiro de Bragança, 1964), pois a seguir a ela viria o comboio que escoaria os cereais e o gado do Planalto Mirandês, o mármore e alabastro de Santo Adrião e o minério da serra do Reboredo que iria abastecer a Siderurgia Nacional.

A rampa mais longa do país O comboio chegou a 17 de Setembro de 1911 e começou por ligar apenas o Pocinho a Carviçais, de modo a servir as minas do Reboredo, no alto de Moncorvo. O segundo troço, entre Carviçais e Lagoaça, já no concelho de Mogadouro, só foi aberto a 6 de Julho de 1927; a ligação de Lagoaça a Mogadouro deu-se a 1 de Junho de 1930; e o troço Mogadouro-Duas Igrejas foi inaugurado a 22 de Maio de 1938. Por falta de dinheiro, a linha, construída ao passo do manso burro mirandês, ficou por ali, a apenas dez quilómetros de Miranda e da fronteira com Espanha. Mesmo assim, era um estirão, 105 quilómetros ao todo e uma serra pelo meio, o Reboredo, a dividir o Douro montanhoso do Planalto Mirandês.

Passar a ponte do Pocinho era o grande momento, e o mais divertido, pelo menos para o escritor José Rentes de Carvalho, radicado na Holanda mas com ligações familiares à aldeia de Estevais, no concelho de Moncorvo. Recorda-o no livro Ernestina, um dos mais belos retratos da vida transmontana do século passado: “O silvo frouxo da locomotiva fez rir. A troçar do modo ronceiro do comboio, os rapazes que passeavam no cais puseram-se a acompanhá-lo a passo, só subindo antes da ponte com que de novo e pela última vez se atravessava o Douro. Mas no começo da encosta fronteira voltaram a descer, alguns dando-se mesmo o tempo de mijar, e, subindo a corta-mato, apareceram depois como por mágica na próxima curva antes de o comboio lá chegar.”

Mal passava o rio, o comboio começava a subir, galgando as encostas viradas ao Douro, às casas da aldeia da Lousa penduradas sobre o precipício, à quinta do Vale Meão que a lendária D. Antónia, a Ferreirinha, tinha construído poucos anos antes. Era uma subida penosa, 25 quilómetros de ascensão contínua até Felgar e 540 metros de desnível, a mais longa rampa ferroviária do país. Foi esse primeiro troço que inspirou o tema popular Eu vou a Miranda ver os pauliteiros. “O comboio vai a subir a serra, parece que vai mas não vai parar, sempre a assobiar vai de terra em terra, dê por onde der quero lá chegar”, diz a canção.

Até Moncorvo, o comboio seguia por lugares inabitados, 12 quilómetros que, embora já não tenham carris, ainda conservam a nostalgia das viagens à janela, passadas entre a introspecção e a revelação de uma paisagem que ia mudando de acordo com a época do ano. Na vila, foram poupadas algumas dezenas de metros de carril, mas é uma memória coberta de ervas e silvas. Já perto da estação, a linha está cortada por uma cancela e dali até ao velho edifício é um estaleiro só, da câmara local.

Mais à frente, e até à estação do Carvalhal, onde era embarcado o ferro extraído nas minas do Reboredo, a linha é agora uma ecopista, muito utilizada, sobretudo no Verão, mas que, para os mais saudosistas da ferrovia, pode ter hipotecado de vez o regresso do comboio.

Aires Ferreira, o socialista que lidera a câmara há duas décadas, pensa exactamente o contrário. “Havia pessoas que já se tinham apropriado da linha, algumas evocando até o usucapião, e a melhor forma de a conservar é mantê-la sob o uso público”, defende.

Com a construção do primeiro troço de ecopista foi recuperada a estação do Larinho, que já deu lugar a uma cafetaria. Foi ali que Lauro António filmou a chegada à estação do Fundão de António Lopes, o jovem de 12 anos protagonista do filme Manhã Submersa e do romance de Vergílio Ferreira. Nessa altura, a Linha do Sabor era a única que ainda tinha automotoras a carvão e foi no Larinho que António fez a viagem que o levaria ao seminário.

Actualmente, está em obras o segundo troço da ecopista, que vai ligar o Carvalhal a Carviçais. Pelo meio, ainda havia o apeadeiro dos Estevais. Um dia, “o padre da freguesia pediu a pedra à Refer, o apeadeiro foi arrasado e a pedra utilizada na construção do lar de terceira idade”, conta o escritor Rentes de Carvalho. Menos mal.

A segunda fase do projecto da ecopista prevê também a recuperação das estações de Carviçais (ao abandono) e de Moncorvo, a primeira para funcionar como centro etnográfico, a segunda para servir de apoio à via verde e, provavelmente, acolher o actual Museu do Ferro, que funciona num espaço acanhado junto à Igreja Matriz. Os planos da autarquia contemplam ainda o prolongamento da ecopista até ao Pocinho. A Câmara de Moncorvo está já, de resto, a pagar desde 2003 uma renda anual de perto de 10 mil euros à Refer pelos cerca de 40 quilómetros de linha (sem carris) existente no concelho, o equivalente a 250 euros por quilómetro. É por isso que há quem critique a Refer por, depois de ter acabado com o comboio, deixado a maioria das estações ao abandono e vendido os carris, ainda receber dinheiro de quem lhe mantém o canal limpo.

Coberto pelas silvas

Já depois de Carviçais, há um lugar chamado Vale de Ladrões e é lá que fica a antiga estação de Freixo de Espada à Cinta, uma ruína coberta de arbustos, cartazes envelhecidos a anunciar touradas em Mogadouro, duas figueiras quase tapadas pelas silvas (há sempre uma figueira junto às estações ferroviárias), cães a latir ao longe, ecos distantes das Ave Marias cantadas pelo altifalante da igreja de Carviçais e, no céu, um milhafre-real em volteios anunciando a proximidade do Planalto Mirandês e do Douro Internacional, o santuário dos grifos e das águias de Bonelli.

Só o nome da estação, gravado em azulejo, se mantém incólume. A vila de Freixo dista 15 quilómetros, mas era em Vale de Ladrões, meia dúzia de casas no meio de nada, que se apanhava o comboio para o Pocinho. Com a ferrovia, foram abrindo umas tascas que abasteciam quem chegava. José Maria Faustino, 71 anos, era o dono de uma delas. Tinha sido emigrante, juntou uns dinheirinhos, regressou ao berço para reconstruir a casa e abrir um negócio. “Juntava-se aqui gente dos Esteveais, Fornos, Mazouco, Freixo e de algumas quintas que havia para aí. Nem imagina o movimento que era.” Hoje só restam duas casas, a sua e a de uma sobrinha, as lojas fecharam, o resto do casario entrou em ruínas seguindo o mesmo destino da estação. “É uma tristeza, mas uma tristeza”, despede-se José Maria Faustino.

Seguimos o rasto da linha, num esforço quase inglório para vislumbrar a plataforma. O silvedo tomou conta do trilho, propriedades estenderam os seus limites, pinheiros e carvalhos vão crescendo onde antes passava o comboio. O vestígio mais visível só se volta a encontrar em Lagoaça, onde a antiga estação é hoje uma Casa Rural que funciona como restaurante, obra da junta de freguesia. “Deve ser a única estação que está recuperada e com uso [há a do Larinho também]“, sorri Carlos Alberto Amaro, 38 anos, a explorar o restaurante há um mês, um sucesso. “Ao almoço servimos umas 70 a 80 refeições.”

De Lagoaça até Duas Igrejas só as estações, todas lindíssimas, todas abandonadas, sugerem que um dia passou por ali o comboio. Em Bruçó ainda escapam os azulejos. O edifício mantém-se de pé graças às suas paredes de alvenaria. O resto é só ruínas, silvas, lixo, uma nódoa no meio de terrenos lavrados, castanheiros e a figueira do costume.

Na estação de Mogadouro, a seis quilómetros da vila, é o mesmo ar de abandono. Por trás, os enormes silos da antiga EPAC já não guardam trigo, só a água das inundações. A casa de Áurea Rodrigues, 69 anos, e João Luís Paulo, 75 anos, é o único elemento de vida. Os dois foram taxistas, ela na estação de Mogadouro, ele na vila. “Uma viagem daqui lá custava 20 escudos”, recorda o homem.

Há menos de 30 anos, quando o Planalto Mirandês era o Alentejo de Trás-os-Montes, os tractores ainda faziam filas de quilómetros para descarregar trigo nos silos da EPAC. “Enchiam duas vezes por ano e quando já não havia mais espaço o trigo era descarregado mesmo aí na rua”, lembra João Luís.

O pessoal era tanto que a mãe de Áurea, a primeira dona da casa, começou a vender umas cervejas, depois umas latas de atum, a seguir uns almoços. Foi alugando um quarto, depois outro e outro, até a casa se transformar num albergue com 19 quartos, “muito procurado por caçadores”, lembra a ex-taxista. Havia trigo, caça. Agora, nem isso.

A linha fechou em 1988, alguns anos depois fecharam os silos. Áurea faz costura onde funcionava o café, o marido trata do gado e da terra, os quartos estão vazios. Já ninguém faz cereal. O pouco que se “fabrica” é para alimentar os animais.

Urrós, a mesma memória triste. A estação já quase não se vê por causa do arvoredo que foi crescendo à sua volta. Em Sendim, a estação fica a um quilómetro da vila. Ainda está de pé, mas vai lentamente sucumbindo ao vandalismo e ao tempo.

Duas Igrejas, fim da linha. A estação surge no alto de uma rua perpendicular à estrada nacional. No ponto superior da frontaria, um painel de azulejos conserva a nobreza original: “Caminhos de Ferro do Estado.” No meio, a esfera armilar. Em baixo, vários painéis de azulejos com motivos regionais: as cegadas, o casario, as igrejas, os pauliteiros, as capas de honra mirandesas.

No lugar da estação, “chegaram a viver dez famílias de ferroviários”, recorda Falcão Miguel, 67 anos, que era factor com poderes de chefe quando partiu o último comboio. Hoje, é o único que ainda lá vive. As outras casas foram ocupadas por famílias ciganas. O celeiro da EPAC foi vendido a um particular, os armazéns de adubos também. Só o antigo armazém da Junta Nacional da Fruta foi melhorado, acolhendo hoje uma cooperativa da raça bovina mirandesa. “Naquele tempo, estava tudo limpinho, nos trinques, era um luxo. Agora não é nada, é uma bandalheira, uma sucata”, queixa-se Lázaro Castro, 62 anos, vizinho da estação onde descarregou “muitos sacos de adubo” antes de emigrar.

Quando a linha fechou, o inspector responsável deixou um pedido a Falcão Miguel – “Agora tome conta disto.” É o que tem feito. Guarda as suas alfaias agrícolas num dos armazéns, vai cortando as ervas e as silvas junto à estação e no pequeno jardim contíguo e dissuadindo o vandalismo, conservando como pode o mais belo edifício de toda a linha, a casa onde nasceu o actual ministro da Administração Interna, Rui Pereira. O pai foi chefe da estação de Duas Igrejas durante alguns anos, o filho-ministro saiu de lá com oito.

A Junta de Freguesia de Duas Igrejas ainda quis ficar com a estação, mas a Refer pediu naquela altura 80 contos por mês. “Uma loucura. Era preciso recuperar o edifício e não havia dinheiro para isso”, lembra Falcão Miguel.

Na década de 90, a Refer vendeu toda a sucata da linha a Manuel Godinho (o do casoFace Oculta). Quando o empresário se preparava para levar os despojos do Sabor, Falcão Miguel pediu-lhe que deixasse, para memória futura, a grua que abastecia os comboios de água e a placa giratória onde eram viradas as automotoras que só puxavam num sentido. “Calha bem. Ia gastar um dinheirão a tirar isto daqui. Em troca, levo mais um camião de carris”, respondeu-lhe Godinho. E assim foi. Ficaram a grua e a placa giratória, mas os carris, primeiro até Felgar, depois até ao Pocinho, foram todos levados.

A guerra do comboioEm Carviçais, o povo ainda deu alguma luta, mas desistiu depressa. A motivação já não era a mesma daquele célebre Setembro de 1979, quando, perante a ameaça do encerramento da linha, “os povos de entre-Sabor-e-Douro pegaram em estadulhos, varapaus, alfaias agrícolas e tudo o que lhes veio à mão para defender o seu comboio, barricando a ponte do Pocinho (o único atravessamento anterior à barragem) e mantendo-a sequestrada, juntamente com uma automotora em Bruçó e um comboio no Pocinho, onde o povo arrancou dezenas de metros de carril para não o deixar seguir para baixo”, de acordo com o relato do arqueólogo Nélson Rebanda deixado no blogue Torre de Moncorvo in blog. Uma semana durou a guerra do comboio, escreveu, “que terminou com uma mão-cheia de promessas (que eram paliativos) dos senhores do Governo e um contingente da polícia de choque a tomar de assalto a estação do Pocinho e a proteger a reconstrução da linha. O povo ainda rosnou de longe e ameaçou com pedras, mas estancou perante os capacetes, viseiras, escudos e bastões de muitos que até seriam transmontanos”.

Nessa altura, a linha já estava agónica, com apenas duas ligações diárias entre o Pocinho e Duas Igrejas, feitas através de uma pequena automotora composta pela carroçaria de um antigo autocarro. Iam longe os tempos em que chegaram a circular várias automotoras e um comboio do correio. Os protestos mantiveram a via aberta a passageiros até 1984. O comboio de mercadoria ainda aguentou até 1988.

No início, o transporte de pessoas era feito através de autocarros velhos contratados pela CP. O iminente fim do comboio tinha levado entretanto a família do actual presidente da Câmara de Freixo de Espada à Cinta, José Santos, a criar a rodoviária Santos. Os autocarros eram mais modernos do que os da CP. A Santos começou a fazer ligações directas ao Pocinho e expulsou a concorrência. Com o tempo, a rodoviária, lembra Falcão Miguel, fez o mesmo que a CP: foi degradando o serviço, complicando os horários, até conseguir conquistar os passageiros para as suas ligações directas ao Porto, deixando o Pocinho ainda mais vazio.

A aventura do comboio no Sabor tinha terminado de vez, deixando muitas aldeias mais pobres e mais isoladas. O sonho cerealífero do Planalto Mirandês esfumara-se com a entrada de Portugal na então Comunidade Europeia. O gado é hoje um passatempo dos mais velhos. O leite já não dá dinheiro. As minas do Reboredo fecharam. A região continua isolada. As estradas melhoraram, mas são praticamente as mesmas. Para ir a Miranda ainda compensa ir por Espanha. O povo do campo, de uma maneira geral, vive hoje dos subsídios de Bruxelas.

O sonho criado pelo comboio desapareceu com ele, deixando nas gentes do Sabor e de Miranda a mesma tristeza, nostalgia e impotência sentida por João Caramês na hora da partida, no conto Tragédia de Um Coração Simples, do livro Ares da Minha Serra, de Campos Monteiro. Preso e degredado para África, por ter caído na perdição de um “amor generoso”, foi de comboio que se despediu de Moncorvo, olhos cravados de lágrimas, o coração desfeito: “João continuava a envolver a vila na sua mirada enternecida. Já a distância a fazia mais pequena, dando aos edifícios a aparência de cubos minúsculos, próprios para brinquedos de crianças. Só a igreja se impunha ainda, maciça e alta, monstro de pedra desafiando os séculos. Depois, a locomotiva torceu subitamente para a esquerda. A vila deixou de ver-se. E o comboio, coleando e rangendo, atirando para o céu volutas de fumo esbranquiçado, entranhou-se nas arribas do Douro.”

in PÚBLICO, 05-12-2009

A conhecer:

- http://letrasecaminhosdeantniofeij.blogspot.com/2009/04/linha-do-sabor.html

- http://pt.wikipedia.org/wiki/Linha_do_Sabor

Simple animation for Estação Viva project of a tipical portuguesa old train
Mix technic 2007

O sétimo livro apresentou-se ontem na Lousã. São 101 fotografias recolhidas no ano do centenário da Linha da Lousã. Um excerto disponível aqui

Uma rua quase pedonal de Paris.

Short film made during the pauses of a two days’ photo assignment in Northern Portugal. All footage captured with a Canon 5D mkii camera ( zero processing, straight out of the CF ), edited with Final Cut. Lens used: 16-35 f2.8, 35 f1.4, 50 f1.4, 135 f2. Most scenes shot hand-held, while others with a standard photographic tripod. Easy to spot the difference !

Apart from being my first cinematic experience with a photographic camera, this is also an experimental movie. I’m currently fighting with Final Cut encoder to get a perfect export with no ‘jumps’ and other artifacts… the “full quality” (2.4Giga) export is perfectly smooth, can’t figure out why this one is not… i’ll update this video when things get neat. I definitely need to dig into FCP and movie making… Meanwhile, i hope you enjoy the 10 minutes pre-release !

The complete budget to produce this movie was 20€ + meals. All the budget was spent on train tickets ( going and returning ). Eat my shorts Vincent Laforet ;-) !

Pictures, poem and editing by Pedro Guimarães, 2009.

pedroguimaraes.net

more about "The Douro Train, a portuguese trip.", posted with vodpod

more about "O Porto", posted with vodpod

ceira

Ceira, Linha da Lousã.

Outubro 2009.

vermeilho

Vermeilho (a pronúncia do Norte) na Linha de Sintra.

Outubro 2009.

Perder o comboio.

NUNO PASSOS

A Coligação Juntos por Tadim, em Braga, está revoltada por o presidente da Junta ter recentemente considerado o edifício secular da estação ferroviária “um cancro”, pois não se lhe deu ainda outro uso após a modernização, em 2002.

Para a oposição, equiparar o imóvel a uma doença terrível “desrespeita” a história, cultura e património local, além dos ferroviários do país. A Junta responde que está a “negociar uma solução” com a Refer, Câmara de Braga e a secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, “também prometeu ajudar”.

“Temos comboio há 134 anos. Está no brasão e em destaque no site da Junta. O presidente está a dar um tiro no pé”, critica o dirigente Carlos Lopes . A indignação popular convenceu a Refer a não demolir a velha casa de passageiros. Mas após sete anos e duas recandidaturas, a Junta “nada fez”, insiste Lopes, quando podia libertar o espaço para associações de jovens, bombeiros, escuteiros, clube de BTT ou um restaurante.

Em carta aberta dá exemplos de reutilizações nacionais idênticas (ver caixa), feitas por privados, colectividades e autarquias, que “também têm obrigação, compete-lhes zelar o património colectivo”. E, não tendo uso material, a valência “tem uso simbólico, pode ser vista todos os dias por milhares” de utentes do ramal.

O presidente da Junta, José Manuel Cunha, defende por seu turno que a estrutura de Tadim pode servir para a delegação de bombeiros ou, então, para sede para quatro, cinco micro-empresas.

“A nossa luta sempre foi dar uso e evitar a degradação da estação, que está um pouco isolada e precisa de vida, de ser ocupada. Mas exige ponderação e o aprofundar do envolvimento da Refer, da Câmara e do Governo”, sustentou. Na verdade, o executivo sensibilizou a GNR de Ruilhe para patrulhar a zona regularmente, evitando actos de vandalismo, delinquência juvenil, toxicodependência e mais paredes grafitadas.

A coligação realça que foi o tadinense Luís Braga da Cruz a pedir em 1872 a paragem intermédia no ramal de Braga, logo um legado da História, e que a estação é única entre as 500 portuguesas – como faltou dinheiro não se fez os dois anexos laterais ao corpo principal.

Em Julho passado, 200 moradores do lugar da Estação, nascidos ou na diáspora, fizeram ali um “convívio memorável”. Além disso, a monografia da freguesia, pedida pela Junta a Eduardo Pires de Oliveira, “mostra ilustres, a estação e as indústrias que durante décadas viveram e cresceram por causa do comboio”.

tadimneve
© Dario Silva, 09-01-2009. Neve na Estação de Tadim.

Tadim, 47 km a montante de Porto Campanhã, é um ponto da recta imaginária que liga Porto a Braga, logo realidade indissociável tanto do Porto como de Braga. A Linha do Minho e o Ramal de Braga são uma das consubstanciações físicas de uma rede perceptível de ligações afectivas, de fluxos, tanto de gentes como de ideias, que queremos cada vez mais forte.

“Temos Ali Um Cancro” Ou Carta Aberta à Junta de Freguesia de Tadim
Foi mais ou menos com estas palavras, e sem conseguir fugir ao sentido mais negro e temerário que as mesmas conseguem transmitir, que José Manuel Cunha, presidente da Junta de Freguesia de Tadim, se referiu recentemente à secular estação ferroviária da freguesia a que preside há 24 anos.

O feito aconteceu no passado dia 8 de Outubro num comício da campanha eleitoral, dias antes da sua reeleição para mais um mandato à frente da instituição que melhor representa os interesses e vontades e riquezas da freguesia.

Pese embora eu não ter estado presente nesse comício, assumo que o presidente da Junta (re-candidato) se estivesse a referir concretamente ao Edifício de Passageiros (EP) da estação ferroviária que serve a terra desde 1875. Portanto, 134 ao serviço de Tadim e do Vale d’Este.

Ao referir-se àquele edifício nestes termos, José Manuel Cunha não deve estar ciente – ainda – do valor efectivo, afectivo e patrimonial da nossa estação. Eu explico.

Nos idos de 1872, quando se iniciou a construção do Ramal de Braga (e a odisseia ferroviária a norte do Douro), não se ponderava a construção de nenhuma paragem intermédia. Quando os comboios começaram a passar, já em 1875, Tadim tinha uma estação ferroviária. Reza a história que um ilustre tadinense de então – Luís Braga da Cruz – intercedeu positivamente para que a sua terra fosse servida pelo comboio. Assim, é de justiça dizer-se que aquela estação, aquele singelo edifício, é também um património conquistado e legado por um homem da terra, um tadinense.

E reza também a história que não havia muito dinheiro para construir a estação de Tadim pelo que só conseguiram dela erigir o corpo principal, sem os dois anexos laterais, elemento comum nas estações Minho e Douro. Consequência? – o EP da estação de Tadim é único em Portugal e Portugal já teve 500 estações… não há nenhuma como a nossa.

Décadas passaram e a estação continuava ao serviço dos tadinenses. Quem nos preside há 24 anos devia saber isso porque a meritória monografia sobre Tadim assinada por Eduardo Pires de Oliveira tem a chancela dessa Junta de Freguesia. Como tal, assumo que tenha lido um trabalho que legitimamente edita. Na obra fala-se de pessoas ilustres e da estação, das indústrias que, durante décadas, viveram e cresceram por causa do comboio, amigo dos tadinenses.

Outras décadas passaram e em Julho deste ano 200 tadineses, aqui nascidos ou na diáspora, realizaram em Tadim um convívio dos “moradores do Lugar da Estação”. Foi memorável.

Assim como parece ter sido memorável o recente passeio-convívio promovido por esta Junta de Freguesia que levou 150 pessoas de Tadim a Aveiro. Embarcaram onde…?

No mesmo comício onde comparou a nossa estação a uma doença temível, José Manuel Cunha, presidente da Junta de Freguesia de Tadim, estaria a recordar-se da posição assumida pelo mesmo executivo quando, ainda em 2002, defendia a não-manutenção daquele edifício porque “aquilo não serve para nada”. Recorda-se?

Mas, sabe, o património não tem que ter uma utilidade material.

“Sempre que desaparece uma referência da nossa memória colectiva algo de profundo morre em nós. Por insignificante que seja, quebra-se um elo da cadeia frágil que nos une. A comunidade a que pertencemos fica mais pobre.” [Miguel Bandeira]

A nossa estação velhinha manteve-se de pé para poder ser contemplada diariamente pelos milhares de pessoas que transitam diariamente nos comboios do nosso caminho de ferro.

Mas como, ao fim de sete anos e aos fim de duas re-candidaturas, esta Junta de Freguesia não conseguiu ainda encontrar qualquer “utilidade” para a estação que não uma de uma doença, tomo a liberdade de partilhar com o seu presidente, e por ordem alfabética, algumas ideias.
- Carreço, Linha do Minho. Sede do Centro Social local. Pode, inclusivé, apanhar-se o comboio.
- Cabeço de Vide, Ramal de Portalegre, restaurante e alojamento.
- Chaves, Linha do Corgo, museu e centro cultural.
- Óbidos, Linha do Oeste, oficina de azulejos. Pode apanhar-se o comboio.
- Lagoaça, Linha do Sabor. Restaurante e alojamento.
- Régua, Linha do Douro, em pleno Património Mundial…
- Ribeiradio, Linha do Vouga, sede da banda de Ribeiradio; o edifício foi ampliado para o efeito.
- São Pedro do Sul, Linha do Vouga, um notável centro de Artes e Sabores.
- Sines, Ramal de Sines. Recomendável restaurante.
- Tâmega (Curalha), Linha do Corgo, habitação e museu.
- Tamel (Aborim), Linha do Minho, sede da Junta de Freguesia. Pode apanhar-se o comboio.
- Torredeita, Linha do Dão. Ecomuseu de Torredeita, junto à escola profissional.
- Úl, Linha do Vouga, restaurante. Pode apanhar-se o comboio.
- Vila Viçosa, Ramal de Vila Viçosa. Para além de ser uma Maravilha local, é também o Museu do Mármore.
- Vilar Formoso, Linha da Beira Alta. Além de se apanhar o comboio para Paris, pode-se jantar no restaurante.

- Vouzela, Linha do Vouga. Actual central de camionagem.

E outros “exemplos”:
- Felgar, Linha do Sabor, foi demolida. Resta a memória.
- Vale de Santarém, a estação vazia ardeu recentemente. Pode apanhar-se o comboio.
- Viseu, Linhas do Vouga e Dão, foi demolida. Resta a memória.

Enquanto munícipe, enquanto tadinense, sei de há muito da sensibilidade para o património desta Junta de Freguesia e do executivo de Mesquita Machado. Desde há décadas, sensibilidade como a de um elefante numa loja de cristais.

Perante o insulto que o senhor presidente da Junta de Freguesia de Tadim dirige ao património da freguesia, lembre-se 297 eleitores não concordam consigo. Um pedido de desculpas público, tanto como foi o comício, favoreceria a democracia em Tadim.

Um abraço do
Dario Silva, tadinense, cidadão português.
Coligação Juntos Por Tadim, sempre.

p.s.: o “cancro” aparece em destaque no site da Junta de Freguesia de Tadim, qual desonra…

Publicado originalmente aqui.

Passar aqui a noite para que outros passem aqui de dia

Passar aqui a noite para que outros passem aqui de dia

cacem_out2009

corrida

Já vi muitas coisas estranhas junto à Linha.

Espanha, 2009.

livro

© 2009