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Hoje viajei para trás no tempo
num comboio dos antigos
até à infância do que fomos
inconscientemente feliz
nem pontilhões nem apeadeiros
nem travessas sob os carris
nem locomotivas a carvão
nem aprendizes de caldeireiros
apenas cães envelhecidos
e gestores que nunca picaram
o destino à condição.
© Dario Silva, Setembro de 2002.
O blog bracarense Avenida Central termina hoje, 16 de Dezembro de 2009, uma parte da sua vida. Pelo gozo que me deu nele ter assinado algumas crónicas, fica aqui o meu apreço.
Para a oposição, equiparar o imóvel a uma doença terrível “desrespeita” a história, cultura e património local, além dos ferroviários do país. A Junta responde que está a “negociar uma solução” com a Refer, Câmara de Braga e a secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, “também prometeu ajudar”.
“Temos comboio há 134 anos. Está no brasão e em destaque no site da Junta. O presidente está a dar um tiro no pé”, critica o dirigente Carlos Lopes . A indignação popular convenceu a Refer a não demolir a velha casa de passageiros. Mas após sete anos e duas recandidaturas, a Junta “nada fez”, insiste Lopes, quando podia libertar o espaço para associações de jovens, bombeiros, escuteiros, clube de BTT ou um restaurante.
Em carta aberta dá exemplos de reutilizações nacionais idênticas (ver caixa), feitas por privados, colectividades e autarquias, que “também têm obrigação, compete-lhes zelar o património colectivo”. E, não tendo uso material, a valência “tem uso simbólico, pode ser vista todos os dias por milhares” de utentes do ramal.
O presidente da Junta, José Manuel Cunha, defende por seu turno que a estrutura de Tadim pode servir para a delegação de bombeiros ou, então, para sede para quatro, cinco micro-empresas.
“A nossa luta sempre foi dar uso e evitar a degradação da estação, que está um pouco isolada e precisa de vida, de ser ocupada. Mas exige ponderação e o aprofundar do envolvimento da Refer, da Câmara e do Governo”, sustentou. Na verdade, o executivo sensibilizou a GNR de Ruilhe para patrulhar a zona regularmente, evitando actos de vandalismo, delinquência juvenil, toxicodependência e mais paredes grafitadas.
A coligação realça que foi o tadinense Luís Braga da Cruz a pedir em 1872 a paragem intermédia no ramal de Braga, logo um legado da História, e que a estação é única entre as 500 portuguesas – como faltou dinheiro não se fez os dois anexos laterais ao corpo principal.
Em Julho passado, 200 moradores do lugar da Estação, nascidos ou na diáspora, fizeram ali um “convívio memorável”. Além disso, a monografia da freguesia, pedida pela Junta a Eduardo Pires de Oliveira, “mostra ilustres, a estação e as indústrias que durante décadas viveram e cresceram por causa do comboio”.

© Dario Silva, 09-01-2009. Neve na Estação de Tadim.
Tadim, 47 km a montante de Porto Campanhã, é um ponto da recta imaginária que liga Porto a Braga, logo realidade indissociável tanto do Porto como de Braga. A Linha do Minho e o Ramal de Braga são uma das consubstanciações físicas de uma rede perceptível de ligações afectivas, de fluxos, tanto de gentes como de ideias, que queremos cada vez mais forte.
“Temos Ali Um Cancro” Ou Carta Aberta à Junta de Freguesia de Tadim
Foi mais ou menos com estas palavras, e sem conseguir fugir ao sentido mais negro e temerário que as mesmas conseguem transmitir, que José Manuel Cunha, presidente da Junta de Freguesia de Tadim, se referiu recentemente à secular estação ferroviária da freguesia a que preside há 24 anos.
O feito aconteceu no passado dia 8 de Outubro num comício da campanha eleitoral, dias antes da sua reeleição para mais um mandato à frente da instituição que melhor representa os interesses e vontades e riquezas da freguesia.
Pese embora eu não ter estado presente nesse comício, assumo que o presidente da Junta (re-candidato) se estivesse a referir concretamente ao Edifício de Passageiros (EP) da estação ferroviária que serve a terra desde 1875. Portanto, 134 ao serviço de Tadim e do Vale d’Este.
Ao referir-se àquele edifício nestes termos, José Manuel Cunha não deve estar ciente – ainda – do valor efectivo, afectivo e patrimonial da nossa estação. Eu explico.
Nos idos de 1872, quando se iniciou a construção do Ramal de Braga (e a odisseia ferroviária a norte do Douro), não se ponderava a construção de nenhuma paragem intermédia. Quando os comboios começaram a passar, já em 1875, Tadim tinha uma estação ferroviária. Reza a história que um ilustre tadinense de então – Luís Braga da Cruz – intercedeu positivamente para que a sua terra fosse servida pelo comboio. Assim, é de justiça dizer-se que aquela estação, aquele singelo edifício, é também um património conquistado e legado por um homem da terra, um tadinense.
E reza também a história que não havia muito dinheiro para construir a estação de Tadim pelo que só conseguiram dela erigir o corpo principal, sem os dois anexos laterais, elemento comum nas estações Minho e Douro. Consequência? – o EP da estação de Tadim é único em Portugal e Portugal já teve 500 estações… não há nenhuma como a nossa.
Décadas passaram e a estação continuava ao serviço dos tadinenses. Quem nos preside há 24 anos devia saber isso porque a meritória monografia sobre Tadim assinada por Eduardo Pires de Oliveira tem a chancela dessa Junta de Freguesia. Como tal, assumo que tenha lido um trabalho que legitimamente edita. Na obra fala-se de pessoas ilustres e da estação, das indústrias que, durante décadas, viveram e cresceram por causa do comboio, amigo dos tadinenses.
Outras décadas passaram e em Julho deste ano 200 tadineses, aqui nascidos ou na diáspora, realizaram em Tadim um convívio dos “moradores do Lugar da Estação”. Foi memorável.
Assim como parece ter sido memorável o recente passeio-convívio promovido por esta Junta de Freguesia que levou 150 pessoas de Tadim a Aveiro. Embarcaram onde…?
No mesmo comício onde comparou a nossa estação a uma doença temível, José Manuel Cunha, presidente da Junta de Freguesia de Tadim, estaria a recordar-se da posição assumida pelo mesmo executivo quando, ainda em 2002, defendia a não-manutenção daquele edifício porque “aquilo não serve para nada”. Recorda-se?
Mas, sabe, o património não tem que ter uma utilidade material.
“Sempre que desaparece uma referência da nossa memória colectiva algo de profundo morre em nós. Por insignificante que seja, quebra-se um elo da cadeia frágil que nos une. A comunidade a que pertencemos fica mais pobre.” [Miguel Bandeira]
A nossa estação velhinha manteve-se de pé para poder ser contemplada diariamente pelos milhares de pessoas que transitam diariamente nos comboios do nosso caminho de ferro.
Mas como, ao fim de sete anos e aos fim de duas re-candidaturas, esta Junta de Freguesia não conseguiu ainda encontrar qualquer “utilidade” para a estação que não uma de uma doença, tomo a liberdade de partilhar com o seu presidente, e por ordem alfabética, algumas ideias.
- Carreço, Linha do Minho. Sede do Centro Social local. Pode, inclusivé, apanhar-se o comboio.
- Cabeço de Vide, Ramal de Portalegre, restaurante e alojamento.
- Chaves, Linha do Corgo, museu e centro cultural.
- Óbidos, Linha do Oeste, oficina de azulejos. Pode apanhar-se o comboio.
- Lagoaça, Linha do Sabor. Restaurante e alojamento.
- Régua, Linha do Douro, em pleno Património Mundial…
- Ribeiradio, Linha do Vouga, sede da banda de Ribeiradio; o edifício foi ampliado para o efeito.
- São Pedro do Sul, Linha do Vouga, um notável centro de Artes e Sabores.
- Sines, Ramal de Sines. Recomendável restaurante.
- Tâmega (Curalha), Linha do Corgo, habitação e museu.
- Tamel (Aborim), Linha do Minho, sede da Junta de Freguesia. Pode apanhar-se o comboio.
- Torredeita, Linha do Dão. Ecomuseu de Torredeita, junto à escola profissional.
- Úl, Linha do Vouga, restaurante. Pode apanhar-se o comboio.
- Vila Viçosa, Ramal de Vila Viçosa. Para além de ser uma Maravilha local, é também o Museu do Mármore.
- Vilar Formoso, Linha da Beira Alta. Além de se apanhar o comboio para Paris, pode-se jantar no restaurante.
E outros “exemplos”:
- Felgar, Linha do Sabor, foi demolida. Resta a memória.
- Vale de Santarém, a estação vazia ardeu recentemente. Pode apanhar-se o comboio.
- Viseu, Linhas do Vouga e Dão, foi demolida. Resta a memória.
Enquanto munícipe, enquanto tadinense, sei de há muito da sensibilidade para o património desta Junta de Freguesia e do executivo de Mesquita Machado. Desde há décadas, sensibilidade como a de um elefante numa loja de cristais.
Perante o insulto que o senhor presidente da Junta de Freguesia de Tadim dirige ao património da freguesia, lembre-se 297 eleitores não concordam consigo. Um pedido de desculpas público, tanto como foi o comício, favoreceria a democracia em Tadim.
Um abraço do
Dario Silva, tadinense, cidadão português.
Coligação Juntos Por Tadim, sempre.
p.s.: o “cancro” aparece em destaque no site da Junta de Freguesia de Tadim, qual desonra…
Publicado originalmente aqui.




