The Douro Train – Pedro Guimarães

Wailroad Rabbit

“O Tua é o mais belo rio que corre pela minha aldeia”

Texto de Luís Pereira

Talvez haja quem não compreenda a importância sentimental de um rio. Eu vivi entre três e quero que a minha alma ribeira não seja adulterada. Quem não compreende os rios não compreende a paisagem e o seu todo da geografia humana. Ainda ninguém me conseguiu explicar o porquê da necessidade da Barragem de Foz Tua. Mas mesmo que me expliquem, eu jamais o compreenderei.

Os rios formam as pessoas, assim mesmo, formam-nos desde criança com os sons, as lendas, os bichos e com os arvoredos que lhe adornam as margens. Quem sentir um rio, sente o significado minúsculo de uma parede de xisto, mas sente-a como a força gigante de um trabalho antigo que ali foi depositado para encanar a água até ao cubo do moinho ruinoso do Ti Alfredo.

Este sentir não é para todos, é apenas para aqueles que sempre cresceram com os rios e que deles lamberam nas margens milenares que o tempo escavou a água a escorrer por entre os dedos das mãos.

Um rio antigo convive com os deuses antigos. E quem sempre com um rio conviveu sente o real significado das religiões.

Um rio não tem explicação. Ou se sente, ou não se sente. E se me dizem que vão adulterar o Tua eu fico quieto e triste a senti-lo inteiro enquanto o tempo escorre entre o fraguedo para o matar na foz.

Não é preciso matemática nem argumentos da economia e da política para defender um rio, não são precisos argumentos da linguagem percentual. A beleza e a paisagem não se constroem num dia. E para mim este é o verdadeiro argumento.

E depois, como diz o poeta, um rio, um verdadeiro rio, um rio que se molda a si próprio “não faz pensar em nada. Quem está ao pé dele está só ao pé dele”.

No País Das Auto-Estradas

“Esta noite sonhei com Mário Lino

Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:

- É sempre assim, esta auto-estrada?

- Assim, como? – Deserta, magnífica, sem trânsito?

- É, é sempre assim. – Todos os dias? – Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente. – Mas, se não há trânsito, porque a fizeram? – Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto. – E têm mais auto-estradas destas? – Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três.

Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. – respondi, rindo-me.

- E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões? – Porque assim não pagam portagem. – E porque são quase todos espanhóis? – Vêm trazer-nos comida. – Mas vocês não têm agricultura?

- Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável. – Mas para os espanhóis é?

- Pelos vistos… Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga: – Mas porque não investem antes no comboio? – Investimos, mas não resultou.

- Não resultou, como? – Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.

- Mas porquê? – Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não ‘pendula’; e, quando ‘pendula’, enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de ‘modernidade’ foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio.

Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos. – E gastaram nisso uma fortuna?

- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos… – Estás a brincar comigo!

- Não, estou a falar a sério! – E o que fizeram a esses incompetentes?

- Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa… e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.

- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo? – Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km. Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não. – Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?

- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações. – Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa? – Isso mesmo. – E como entra em Lisboa? – Por uma nova ponte que vão fazer.

- Uma ponte ferroviária?

- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa. – Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!

- Pois é. – E, então? – Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.

Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.

- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta… – Não, não vai ter.

- Não vai? Então, vai ser uma ruína!

- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína- aliás, já admitida pelo Governo – porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar. – E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?

- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!

- E vocês não despedem o Governo?

- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo…

- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro? – Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.

- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia? – A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV. – Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?

- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade. Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás: – E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?

- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.

- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?

- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.

- Não me pareceu nada…

- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.

- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?

- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.

- E tu acreditas nisso?

- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo? – Um lago enorme! Extraordinário!

- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa. – Ena! Deve produzir energia para meio país! – Praticamente zero.

- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber! – A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.

- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar – ou nem isso?

- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.

- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada? – Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor. Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente: – Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?

- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez. Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou: – Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!”

Citei um descendente de ferroviários, Miguel Sousa Tavares.

O Comboio Que Sobe O Tua

Ode Triunfal

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,

Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!

chamartin

De  Álvaro de Campos, um excerto mínimo da Ode Triunfal.

Madrid Chamartin.

Papa, Ven En Tren

“8/7/2009  SIETE X SIETE


Papá, ven en tren

JULI CAPELLA

Papá, mamá, hijos, amiguetes: venid en tren. Porque no traquetea tanto y empieza a ser más puntual, el AVE y el Euromed. Venid en tren porque es más probable que lleguéis a casa sanos y salvos que yendo en coche. Además, podréis disfrutar leyendo el periódico. O paseando arriba y abajo zampándoos el bocata. O bien mirando el paisaje por los amplios ventanales, aunque sea para comprobar la avaricia edilicia de la última década. También es posible que os ofrezcan ver una peli y os enchufen unos auriculares chungos, pero no es obligatorio usarlos. Podréis descansar un rato, ir al vagón bar o, incluso, echar una cabezadita, siempre que los vecinos no sean moviladictos. Iréis del centro al centro de la población gozando de mayor bienestar, a no ser que se desmadren con el aire acondicionado. Pero sin caravanas, sin agobios ni pitidos. No hará falta llevar pasaporte ni quitarse el cinturón al embarcar. Y las damas podrán llevar cuantos líquidos, cremas y demás potingues se les antoje.

manresa2

Viniendo en tren habrás destrozado menos el territorio; en proporción usarás una décima parte de lo que ocupa el coche. E incidirás infinitamente menos en lo que a desaguisados estéticos se refiere. Viniendo en tren, contaminarás menos por el camino, pero ojo, la generación de electricidad ensucia en origen.

Mientras no exista la teletransportación, el tren seguirá siendo uno de los medios más efectivos para desplazarse. Por eso Renfe debería mejorar el servicio de Cercanías, todavía muy precario. Ir en tren debería ser más barato y potenciarse con nuevas vías y estaciones por todo el país. Sin que obligatoriamente pasen por Madrid, ni siquiera por Barcelona.”

d’aqui

Souvenir OMD

O Primeiro Meio-Bilhete

bilhete

Ócio ou Nada Para Fazer

ocio

Nada para fazer na Linha de Guimarães, Junho de 2009.

Atocha Recoletos

Outros Passageiros

On nous avait dit “c’est pour un soir”
On est encore là vingt ans plus tard
Ici les Enfoirés
Oh oh oh rejoins notre armée

Les saltimbanques c’est pas sérieux
Mais les ministères n’ont pas fait mieux
Ici les enfoirés
Oh oh oh rejoins notre armée

Faut-il chanter contre les misères
Ou bien se taire, passer, ne rien faire
Ici les Enfoirés
Oh oh oh rejoins notre armée

Chaque année plus de gens secourus
Mais chaque année plus encore à la rue
Ici les Enfoirés
Oh oh oh rejoins notre armée

Chanter, chanter même à en pleurer
Entre un rêve et la réalité
Ici les Enfoirés
Oh oh oh rejoins notre armée

Parfois je me demande à quoi ça sert
Espèce d’Enfoiré, chante et espère
Ici les Enfoirés
Oh oh oh rejoins notre armée

Et si tu trouves un jour la solution
On fêtera tous notre dissolution
Ici les Enfoirés
Oh oh oh rejoins notre armée

On nous avait dit “c’est pour un soir”
On est encore là vingt ans plus tard
Ici les Enfoirés
Oh oh oh rejoins notre armée

Nunca te cases com um ferroviário…

Jacou

jacou

Jacou, Linha 2 do Tram de Montpellier, França.

Abril de 2009.

No sítio do costume

ocostumeAcontece no Cacém, podia ser Barcarena ou Rio Tinto ou Alverca ou Avanca ou Leandro ou outro sítio qualquer.

Linha de Sintra

desporto1

AMERICA

lisboa

AMERICA – “What does it matter”

(Vídeo sofrível aqui)

Apeados

Sem comboio, não há passageiros. No Brasil ou noutro sítio qualquer.

Comboios com Nome – 2

 

Manoel de Oliveira - Cineasta

Manoel de Oliveira - Cineasta

VOUGA100ANOS

(Imagem e Edição de Carlos Araújo)