“O Último ‘Silvo’ na Linha da Lousã é Hoje às 23.33”

Diário de Notícias, 04-Janeiro-2010

por PAULA CARMO

Utentes estão preocupados em chegar a horas ao destino, a partir de amanhã. Muitos olham pela derradeira vez para o comboio.

O último “silvo” escuta-se hoje à noite. Nos carris da memória circulará o comboio nº 6534, no percurso da derradeira etapa da Linha da Lousã. “Ai, nunca mais posso fazer renda na viagem. Já viu os solavancos e as curvas da Estrada da Beira?”, lamenta Maria da Anunciação Marinho. Esta não é, porém, a sua maior preocupação.
Voltemos aos carris: esse comboio, a etapa final de uma linha férrea com 103 anos, fará hoje o sentido Miranda do Corvo – Coimbra. Sairá às 23.04 e chega à estação de Coimbra/Parque às 23.33. É o fim decretado em nome do progresso. Ali vai nascer um novo sistema de transporte, em versão tram-train. “Ai menina que vai ser tão complicado chegar a horas ao trabalho”, volta à conversa Maria da Anunciação (61 anos, Miranda do Corvo) que, confessa, “nos primeiros dias sem comboio” vai trocar os transportes rodoviários alternativos pelo seu automóvel.
O DN adquiriu o bilhete já dentro da locomotiva. E escutou as lembranças de quem fez desta linha uma etapa da vida. Ainda há quem se lembre das senhoras que transportavam galos e outros animais para vender na feira de Miranda do Corvo. Outros tempos onde até as traquinices da juventude faziam as delícias dos passageiros, pois havia quem esticasse cordéis no corredor para que algumas “velhotas” se estatelassem em cima de outros passageiros. Ali, muitos se conheceram e namoraram. Outros estudaram nas sebentas. Carris que foram usados para transporte de muitas mercadorias, designadamente de pasta de papel, de alcatifas. Também isso já só pertence aos compêndios da história desta ferrovia.
Recentemente, o trajecto do ramal da Lousã (que integrava o percurso entre Serpins/Lousã, Miranda do Corvo, Coimbra) foi amputado, por causa do arranque oficial das obras da primeira fase do projecto. Se tudo correr como previsto pela MetroMondego, o tram-train chegará dentro de anos. Quantos, até ter o eléctrico rápido de superfície? Entre os utentes, o descrédito é absoluto, porque há quase 20 anos que este projecto entrou no léxico dos passageiros dos três concelhos abrangidos pelo metro. Mas, com o passar dos anos, as reticências são muitas.
Palmira Chau, 77 anos, vai de Coimbra à Lousã visitar a filha, agora só lamenta perder esta “paisagem deslumbrante”. Por estrada, a geografia é outra. E o trajecto de autocarro ou automóvel pode ser “consumição”, alude Odete Fachada (50 anos, Trémoa/Miranda do Corvo). A sua idade confunde-se com o tempo de utente dos comboios. “Vai ser muito transtorno, já tenho os novos horários mas nunca é como o comboio.”
Para o fim, quedaram-se a funcionar apenas oito apeadeiros e duas estações. Agora, há paragens de autocarro até Coimbra, com a sinalização de ‘Metro’. Manuel Amaral (52 anos, Padrão/Lousã), que usa este transporte para trabalhar em Coimbra, está receoso: “O primeiro dia vai ser às cegas. Há 27 anos que venho neste comboio, tenho lembranças para todos os gostos”. Inconformada com esta despedida está Urbalina Correia (58 anos, Miranda): “Ando aqui há 40 anos, e agora, como se entrará em Coimbra com tantos carros?”

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