“PÓVOA DE VARZIM, A PRAIA DOS FLAVIENSES”


“PÓVOA DE VARZIM, A PRAIA DOS FLAVIENSES”

Por António Roque:

O despertador tocava forte, ainda o dia estava longe de clarear.

E acordava toda a gente da casa, que excitada pela viagem não conseguira a profundidade do sono.

Os mais velhos eram os primeiros a largar a cama e numa de bondade, enquanto ultimavam as malas e as merendas, permitiam mais uns minutinhos de preguiça à miudagem.

Depois vinha o alvoroço, a azáfama na casa, o comer ou não comer qualquer coisa, importante para evitar o enjoo, a correria escadas a baixo em direcção à rua, rumo à estação, não fosse o comboio partir …

Os grandes malotes de porão, cheiinhos de lençóis, cobertores (na Póvoa à noite refresca…), pratos, tachos e panelas, seguiam antes para despacho na carroça da velha Pássara.

Em grupo, quais peregrinos, atravessávamos a cidade, que quási findava no Monumento, onde nascia o cheiro do comboio que na estação fumegava.

Mas nas narinas levávamos também o sabor da maresia que ficara do ano anterior, o gosto do picadeiro que iríamos percorrer na neblina do Passeio Alegre, o som da ronca do Cego do Maio olhando as ondas e a espuma deste país de marinheiros.

A viagem longa era uma vertigem festiva com o comboio acordando com o seu apitar estridente, gentes, animais, vales e montes por onde, lindo serpenteava.

A carruagem era um deslumbrante miradouro em movimento, onde cantávamos, riamos e atacávamos a fome nos suculentos farnéis.

Na Régua acontecia o primeiro e inevitável transbordo.

O comboio era outro, as pessoas eram outras e diferentes, a viagem decorria mais célere.

Já passava da uma da tarde – a partida de Chaves tinha acontecido ás seis da manhã – quando, após o túnel que infundia temor e respeito aos mais novos, vislumbrávamos a monumental Estação de São Bento, na cidade grande, onde depois do chiar dos freios e do último solavanco, o comboio definitivamente parava.

Mas a odisseia ainda não terminara.

Era preciso atravessar a baixa portuense até à Trindade, o que devido à bagagem (toda a espécie de sacos e saquinhos), só em táxis se podia concretizar.

Chegávamos então ao último troço da aventura.

A Póvoa estava perto.

Mais uma hora de comboio desta vez mais rápido e nossos olhos pousavam no mar infindo e azul.

A tarde já ia a meio, quando a senhora da casa alugada nos recebia.

Nas arrumações necessárias, estorvávamos mais do que ajudávamos.

Em pulgas, corríamos ao mar para molhar os pés em água fria e salgada, trepar e correr nas areias brancas.

As ruas da Póvoa esperavam-nos e nós procurávamos caras conhecidas, os cartazes dos filmes que o Póvoa Cine e o Garrett exibiam e sobretudo os olhos da jovem que no último Agosto se grudaram à nossa memória afectiva.

A mãe, a avó, as tias e a criada (o pai e o avô só chegariam no fim de semana), nesse dia não tinham tempo para fazer a janta.

Comia-se o muito que sobrara da farta merenda acrescida com a panocha adquirida em Valongo, regada pela água fresquinha da bilha comprada na Régua.

O sono chegava cedo, embalado pelo cheiro do mar e pelo cansaço da euforia da viagem.

No dia seguinte, começavam as férias inesquecíveis na Póvoa do Mar, a Póvoa do Varzim, a Praia dos Flavienses.”
Texto extraído de http://paradadocorgo.blogs.sapo.pt/206603.html

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