“A Ver os Comboios”

© Luísa Teresa Ribeiro

O secretário de Estado dos Transportes lamentou, recentemente, que os comboios portugueses não transportem «tantas pessoas quanto deveriam» e apelou aos cidadãos para «utilizar este transporte em vez de apenas reivindicar mais serviços». «Temos linhas carregadas, mas há linhas no interior em que as populações, autarquias e certas forças reivindicam mais e mais comboios, mas parece que querem vê-los, porque quando olhamos para as pessoas que realmente andam, são poucas», disse Carlos Correia da Fonseca, citado pela agência Lusa.

O apelo do secretário de Estado à utilização do comboio é importante, especialmente quando dirigido aos mais jovens. Contudo, o que este responsável governamental não referiu é que provavelmente as pessoas não usam o comboio, nem outro transporte público, porque não têm ao seu dispor serviços de qualidade, que lhes permitam chegar a tempo ao local de trabalho, de uma forma tão ou mais cómoda do que se forem de automóvel particular.

Antes de desafiar a população a usar a ferrovia é necessário criar horários adequados à necessidades das pessoas. Em alguns casos, por escassos minutos, há comboios que não têm ligações uns com os outros. Mesmo naqueles em que, pelo horário, essa ligação deveria ser garantida, o carimbo vermelho colocado no bilhete a dizer que «as ligações entre comboios só são asseguradas em condições normais de circulação» deixa logo os passageiros “de coração nas mãos”.

A falta de articulação torna-se ainda mais flagrante quando se pensa em usar diversos meios de transporte, obrigando quem recorre a estes serviços a autênticas odisseias, muitas vezes com sacos às costas. A rede de transportes públicos em Portugal é uma miséria, embora também seja igualmente verdade que as pessoas adoram levar o carro para todo o lado.

Há muito que já se percebeu que os transportes públicos ficam mais baratos para os bolsos dos utilizadores e são mais ecológicos, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida, por isso importa olhar com especial atenção para este sector. Corremos o sério risco de esgotar a discussão em torno do TGV, quando a questão é mais vasta e mais profunda. Enquanto se anda no avança e recua em relação à grande velocidade, há linhas de caminho de ferro que continuam a definhar. E a situação não se altera só com apelos bem intencionados para que as pessoas usem o comboio…

[Publicado no Diário do Minho, 25 de Setembro de 2010]
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