“O Douro, sempre só”

Daniel Deusdado aqui.

Passei os últimos quatro anos com o peso da morte do rio Sabor na parte subterrânea do meu cérebro. De vez em quando, subitamente, lembrava-me de um rio pequeno que parecia chorar e rir, rebelde e limpo, de que quase ninguém queria saber à excepção de uns sonhadores unidos na Plataforma Sabor Livre. Perante a ameaça de uma gigantesca barragem, eles falavam de um rio ainda com peixes, águias, lobos, vegetação milenar, muito inóspito, livre da nascente à foz, que viam morrer às mãos da ganância energética da EDP. E claro, com a bênção do anterior Governo – eram necessários muitos milhões para abater ao défice, a EDP pagava-os, foi sem espinhas. Assim se vendeu a preço de saldo um extraordinário pedaço selvagem do território português, verdadeiramente único para quem tivesse olhos de ver – e muitos seriam os que, cada vez mais, acorreriam para sentir o que era a natureza em estado puro como quase já não há no mundo ocidental. Ou acham que os turistas viajam para visitar barragens e “centros de interpretação ambiental” que ficcionam o que existia antes destes holocaustos hídricos? Ou que alguém vem para Portugal para tomar banho em águas sujas e perigosas como são as de muitas barragens? Sempre pensei que a esperança de salvar o outro rio também condenado, o Tua, não surgiria de um súbito alarme em defesa da natureza nem do reconhecimento do absurdo que é construir novas barragens (quando bastaria aumentar a potência das que já existem). A salvação do rio Tua seria… o comboio, essa obra humana que, apesar de tudo, não se compara com a “Mão de Deus” que esculpiu o vale do Sabor. É o comboio que salva o Tua? Que seja. Uma obra extraordinária pela mão de uma geração visionária que rachou pedra e abriu túneis, fazendo uma engenharia notável para a época. Uma aventura que custou vidas e muito dinheiro – estávamos no século XIX, foi como se tivessem construído o TGV… Hoje percebemos que a linha do Douro e do Tua são a nossa “Suíça ferroviária”. Só a poderemos aproveitar se não a destruirmos. Além disso, os chineses ou os alemães que vão mandar na EDP não ficam mais ricos ou mais pobres se não construírem uma barragem no Tua. Mas nós perdemos muito sem o “Douro Património Mundial”. Infelizmente, obediente a todos os poderes de circunstância, a CCDR-N continuou ontem o seu lamentável papel de cicerone da perda dos valores naturais do Douro sublinhando em comunicado que a barragem do Tua se situa em 99,9% fora do “Douro Património Mundial”… É desta tragédia que vos falo: da tragédia da distância, quando as decisões dos gabinetes é meramente jurídica, técnica, quantas vezes absolutamente estúpida por ver as coisas por parcelas e não no seu conjunto. Como é o caso: então o comboio do Tua e a profunda afectação da paisagem está fora do tecnicamente designado “Douro Património Mundial”? Ah, bom, estamos mais descansados… A EDP entretanto, que manda, paga e não dorme, o que fez? Contratou Souto Moura (do Porto, claro) para que o inquestionável “Pritzker” torne inquestionável a ‘obra de arte’ que vai ser a barragem. Um caso mundial. Será uma barragem forrada a granito? Dito de outra forma: não há, num homem como Souto Moura, um breve sobressalto antes de emprestar a sua mão a esse embuste que é pintar de “verde arquitectónico” a destruição irreversível de uma parte essencial do Douro natural e humano? E Francisco José Viegas? Um homem nascido no Douro profundo – no Pocinho. Estou convencido que se dependesse dele isto parava. Mas a política é assim: instalem homens livres e inteligentes em gabinetes de Lisboa e Porto, submetam-nos aos lobbies ou à pressão dos partidos, e as suas decisões passam a ser a negação do que foi toda a sua vida. E mesmo que o secretário de Estado da Cultura comece por dizer no Parlamento que “a única coisa que o Governo não admite é perder a classificação de Património Mundial”, tem depois de fazer números de circo e sugerir que se pintem barragens para as integrar melhor na paisagem. Ó Francisco, e se fizéssemos uma arrojadíssima jarra Phillipe Stark com as cinzas do original dos Lusíadas? Não era uma grande ideia?

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One thought on ““O Douro, sempre só”

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