“No Vale do Tua, os políticos vão nus…”

linha_do_tua_anecumenaDurante o programa Olhos nos Olhos, emitido na noite de 20.1.2014, e que contou com a presença do prof. João Joanaz de Melo, fiquei absolutamente chocado e indignado com os argumentos que continuam a servir de suporte à construção da barragem do Vale do Tua, a qual, além de ser desnecessária, representará um meio de produção excessivamente caro, quando comparado com outras fontes de geração de energia elétrica.

Em nome da hipocrisia de uma energia “limpa”, atentos os fortíssimos impactos ambientais que irá gerar, o Estado prefere gastar 2,6 mil milhões de euros a construir a barragem de Foz Tua, dos quais 1,5 mil milhões de euros correspondem a lucros limpos para a EDP, em vez de investir uma parte desse dinheiro no benefício real de Trás-os-Montes, que é a região portuguesa mais próxima do Centro da Europa e, curiosamente, a mais pobre, e na reabilitação da Linha do Tua, que representa um verdadeiro monumento nacional e que é uma ligação estratégica à rede ferroviária nacional.

A total ausência de um plano de desenvolvimento integrado para Trás-os-Montes e que serviu de base à legítima alteração de opinião do eng.º José Silvano, que, após anos de luta contra a barragem, preferiu agarrar-se às “micro” contrapartidas económicas oferecidas pela EDP, só se mantém porque, sucessivamente, os políticos transmontanos, ao mudarem-se para Lisboa, rapidamente esquecem as suas origens… E só com a união coesa de todos os autarcas da região é que se conseguirá reverter este contínuo abandono.

A acrescentar, a barragem continua em construção, com base num contorno habilidoso das exigências da UNESCO, materializado na omissão da forma como irá ser ultrapassada a questão da linha de alta voltagem que ligará a central de Foz-Tua a Valdigem, sem ferir a paisagem do Alto Douro vinhateiro, questão que foi levantada desde o início do projeto e cujo custo total se desconhece e que irá onerar ainda mais o investimento em curso, pelo que não está totalmente garantido que aquela entidade não venha a alterar a sua posição atual.

Mesmo o plano de mobilidade previsto para o Vale do Tua tem contornos patéticos, porquanto prevê quatro modos de transporte (elétrico + teleférico + barco + comboio) em apenas 55 quilómetros, obrigando a três transbordos que, além de corresponderem a roturas na viagem, tornam-na tão demorada que, num curto espaço de tempo, se tornará economicamente inviável. Esta solução em nada substitui a mobilidade que a Linha do Tua proporcionava à região e ao seu desenvolvimento turístico, nem representa uma alternativa viável para o transporte de mercadorias.

Só a nossa vontade e determinação pode ser mais forte na preservação do Vale do Tua, fazendo vingar os argumentos que, desde há vários anos, alertam para o grave erro que a barragem representa, nomeadamente por se estar a entregar património natural único, irrepetível e de valor incalculável, a uma empresa que já nem é portuguesa, e que, operando em monopólio, nos vende uma das energias mais caras da Europa, gerando lucros obscenos.

Se o atual Governo não entende estes argumentos, nem a vontade por tantos assumida e vertida em mais do que uma petição à Assembleia da República, e não toma a decisão de suspender definitivamente a barragem do Vale do Tua, cujo custo máximo se estima em 250 milhões de euros, valor que aumenta a cada dia que passa e que é 10 vezes inferior ao custo de a construir, não considerando ainda a linha de alta tensão Foz-Tua – Valdigem, então é porque a dúvida que subsiste acerca da saúde da nossa democracia se tornou numa certeza, estando a mesma moribunda e a ser alimentada com o engodo de podermos brincar às eleições periodicamente…

É triste e desolador saber que parte dos nossos representantes, a quem pagamos o ordenado com os nossos impostos, acovarda-se perante os grandes e ataca sem decoro os pequenos, pelos “erros políticos” que cometem de forma continuada, e na certeza de uma impunidade total… Afinal o Vale do Tua é que deveria ficar nu e querem-lhe vestir a pior das fardas… A farda da cegueira e da mediocridade política…

Alberto Aroso,
Especialista em Transportes e Vias de Comunicação”

in Público, 04/02/2014

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